quinta-feira, 26 de maio de 2011

CAPÍTULO 1: AQUELA PALAVRA!


Eric –

Eu me lembro do dia fatal em que minha mãe proferiu aquela palavra pela primeira vez. Aquilo chegou aos meus ouvidos como um carrapicho na meia e cheirou mal como uma torrada quei­mando na cozinha. Eu nunca mais seria o mesmo. Como pude ser exposto de tal forma àquela palavra?
Eu estava bem na minha quando, de repente, percebi que o nariz de minha mãe se aproximava do meu rosto como se ela fosse um cientista maluco analisando pelo microscópio uma ameba amassada. Eu, sentindo-me um tanto desconfortável, tentava desviar-me. mas o nariz persistia - aproximando-se cada vez mais perto... e mais perto... e mais perto. Até que finalmente:
- Ah!
Minha mãe vencera! Ela descobrira a verdade escondida... um pontinho amarelado! Mas a pior parte estava por vir. Foi a palavra que ela disse que provocou mal-estar e embaraço.
- Eric, parece que você está na...
E foi bem aí que ela falou aquela palavra!
Pouco tempo depois, fui novamente exposto àquela terrível e abominável palavra. Outra vez ela saiu dos lábios inocentes e confiantes de minha própria mãe. Dessa vez, aconteceu na cozinha. Eu não sabia do perigo iminente, enquanto fuçava, matava a sede e a fome em um de meus cômodos preferidos da casa. Era lá onde eu encontrava algum refrigério. Era naquele exato lugar onde eu encontrava paz, alegria e satisfação. Mas também foi lá onde eu me vi face a face com aquela palavra!
- Mãe, me dá um copo de leite?
Enquanto dizia aquilo, minha voz falhou como uma taquara rachada. Foi como se um enorme ovo tivesse sido quebrado bem em minha cara. Minha mãe riu e disse:
- Que bonitinho! Eric. você está passando pela... E outra vez. tão claro como o dia, tão mal cheiroso quanto um gambá -aquela palavra.
É muito triste ter de dizer isto: eu, Eric, não sou o único que foi amaldiçoado por essa terrível palavra. Essa palavra tem uma reputação! Na realidade, é algo centenário! Sabemos que ela fez com que os criminosos mais durões ficassem corados de vergonha. Muitas mães já experimentaram grande desgosto, e pais se esconderam devido ao seu simples pronunciamento. E ela não afetou apenas a plebe. A história nos revela que ela derrotou até mesmo o cavaleiro mais corajoso e a princesa mais digna. Na verdade, essa palavra maluca é conhecida por ter fraquejado os joelhos do zagueiro mais durão e por ter amolecido como gelatina o coração do mais bravo oficial da marinha.
Aquele dia fatal na cozinha não seria a última vez que eu teria uma colisão frontal com aquela palavra. Não passou muito tempo para que as espinhas começassem a brotar em meu rosto como os cactos do nosso jardim e uns odores estranhos começas­sem a exalar de minhas cuecas anunciando em "claro e alto som" que Eric estava embarcando em um período de sua vida chama­do... AQUELA PALAVRA!
Logo depois, todo o caos culminou com um enorme massa­cre da dignidade de minha infância, quando meu pai me chamou para termos "A conversa". "A conversa" baseou-se naquela pala­vra. Tudo o que era mais desagradável, tudo o que era estranho, tudo o que era gorduroso era culpa daquela palavra!
Uma noite meu pai me convidou para acompanhá-lo em uma volta pela cidade. Não havia nenhuma razão em particular, apenas um passeio inocente pela cidade. Foi uma conspiração! Eu devia ter pressentido no ar, mas estava muito distraído para perceber. Entramos em nosso carro amarelo cor de banana (uma linda lembrança dos meus tempos de criança) e nos dirigimos para a rua para um... estacionamento! Meu pai sabia o ambiente perfeito para fazer com que seu filho se sentisse confortável. Com a justificativa de conversar sobre estratégias de futebol (meu pai era o meu técnico, e nós teríamos um jogo na manhã seguinte), ele começou a falar:
- Então. hum. Eric... ah. acho que você poderia me ajudar a planejar a posição do time para o jogo de amanhã contra os Blazers. o que acha? Ele perguntou com um constrangimento que encheu todo o nosso carro amarelo cor de banana.
Concordei, e papai prosseguiu - procurando por uma folha de papel que tirava de sua maleta. Eu podia sentir que uma granada estava para explodir.
- Bom. porque não colocamos o Luck aqui. à direita, e talvez o Johnny no meio do campo, à esquerda e...uh... Ele parou.
De repente, o silêncio pairou no carro como o vento gelado de inverno atravessa a camiseta. Passados alguns segundos, com a coragem de um novilho que sabe que está indo para o matadouro, ele continuou:
- Éééééé que. bem... ele murmurou.
- Hã! hã!... pigarreou e continuou, falando nisso. Eric. tem uma coisa que quero falar com você.
A granada havia sido lançada, e eu era o alvo.
Nunca me esquecerei daquela noite no estacionamento. Passei, praticamente, toda a noite fitando o chão do carro amarelo cor de banana, com as bochechas enrubescidas e com os ouvidos transbordando com aquela palavra. Naquela monotonia, a única coisa que eu disse durante toda a noite foi "u-hum". Era como se fossem dois terríveis pesadelos em um só: beijar o meu irmão na boca e ir para a escola sem roupa. Mas se para mim era difícil, imagine para o meu pai. pois ele foi a pessoa que. de fato. falou aquela palavra!
Se eu pudesse, nunca mais pensaria naquela palavra, ou a ouviria, ou a pronunciaria novamente. Mas acontece que um crime imperdoável ocorreu em nossa sociedade, e o culpado precisa ser claramente identificado. É isso mesmo - aquela palavra é a suspeita principal. Essa não é uma acusação trivial. Esse foi um crime capital merecedor de uma punição que "coloque todos os pingos nos is" até que haja o cumprimento total da lei.
Existe alguma coisa em nossa sociedade que tem torturado as mentes dos jovens, atormentando-os com insegurança e amea­çando-os com constrangimento. Este indivíduo, digno de condena­ção, é conhecido por desorientar gerações inteiras de jovens da verdadeira beleza de se tornar um adulto, jogando-os em um dile­ma causado pelas palavras engraçadas e por falsas interpretações. Eu experimentei, por conta própria, lidar dignamente com esse indivíduo e fazer justiça sem delongas. Neste momento, quero apresentar-lhes os maiores suspeitos, um dos quais é aquela pa­lavra:

1) alcachofras
2) hora de dormir
3) lição de casa
4) fígado com cebolas
5) e... é... pu... pubahh...puberdade!

Agora, é óbvio para todos que cada uma dessas coisas é uma tremenda ameaça para os jovens, mas existe uma que sobrepuja as demais. Uma palavra que faz com que as outras sejam "fichi­nha'". E! Você está absolutamente certo! É aquela palavra1. É aquela palavra que faz nascer espinhas na sua cara. mas que não lhe explica como se livrar delas. É aquela palavra que o transfor­ma de um menininho bonitinho em um quatro olhos desengonçado e otário com cabelo seboso, sem, ao menos, ter a polidez de enviar um cartão de "melhore logo". Aquela palavra é a única responsá­vel por nos confundir a cabeça com todas essas palavras engraça­das.

Eu me lembro de olhar para o fundo da classe e ver Cindy McFarlane (este não é o seu nome verdadeiro). "O que é aquilo?" Minha mente questionou em agitação. Uma outra parte de mim res­pondeu sarcasticamente: "Aquilo é uma garota, esperto!" Eu sa­bia que Cindy era uma garota, mas tinha certeza de que alguma coisa havia mudado. Até então, eu estava condicionado a reagir comum "credo!" Mas. subitamente, o "credo!" não coincidia com os sentimentos em meu interior. Talvez um "uaaauuu ". mas nunca um "credo!"
Eu estava mudando. Meu rosto estava ficando cabeludo como uma casca de pêssego. Minha voz estava falhando. Coisas estranhas estavam acontecendo comigo, e eu me sentia deslocado dos outros. Sentia-me como um pingo de sorvete derretendo na calçada. Meu pai "havia me ajudado" a compreender as mudanças físicas durante "A conversa", mas havia algumas outras coisinhas acontecendo também. Eram coisas internas. Desejos dentro de mim que eu nunca havia sentido antes.
A palavra maluca, puberdade. ecoava por todos os lados e parecia gritar para mim: Ei. você. seu otário. João Ninguém em puberdade. apenas se olhe no espelho! Você acha que alguém poderia amá-lo do jeito que você é?
Até então, eu nunca havia questionado se os outros me acha­vam atraente ou não. ou se eu era uma pessoa que pudesse desper­tar o amor de uma garota. Mas. subitamente, eu só conseguia pen­sar naquilo: Puberdade! Puberdade! Puberdade! Você está na puberdade! Aquela palavra inundava a minha mente. Imagens de Cindy McFarlane despontavam em minha mente, enquanto eu sus­surrava: "Desiste, seu desengonçado de boca metálica!"
Dentro de mim estavam acontecendo coisas que "A conver­sa" daquela noite no estacionamento não me havia preparado. De repente, eu sentia o desejo de ser atraente. Durante os últimos doze anos. eu não me importava se o meu cabelo estava arrepiado, se a minha camiseta estava amarrotada ou se havia molho de pizza no meu queixo... Agora, surgindo repentinamente do nada. eu sentia que precisava ser atraente.
Talvez a Cindy até olhe para mim hoje! Eu advertia a mim mesmo ao acordar uma hora mais cedo do que o normal para me aprontar para ir à escola.
Comecei a ficar horas e horas escolhendo o traje certo, pas­sando esfoliante na cara para ver se me livrava daquelas espinhas obscenas e, é claro, cuidando do item número 1 do horário de minha agenda matutina: o penteado. Desenvolvi um estilo de pente­ado que era embelezado e ornamentado à perfeição. Eu precisava estar cem por cento. Se um fiozinho de cabelo estivesse fora do lugar, isso era suficiente para que eu largasse o café da manhã para colocá-lo no lugar.
Comecei a estudar revistas que tivessem homens do tipo "machão". Lembro-me de quando folheava uma revista e me deparei com o Arnold Schwarzenegger sem camisa. Pensei comigo mesmo: Uau! Então é assim que devo parecer?
Imediatamente fui para o banheiro e tirei a camiseta. Olhei para o espelho com um sorriso a La Clint Eastwood, curvei os braços e os flexionei como o Schwarzenegger na revista. "Puf!" Uma pelotinha de músculo apareceu em meu braço e "Puft!" Su­miu. Foi naquele momento que enxerguei pela primeira vez "O magrela".
Meu desejo de ser atraente levou-me, uma manhã, antes de ir para a escola, ao estojo de maquiagem de minha mãe. Minhas espinhas estavam se multiplicando em meu rosto como uma ninha­da de coelhos, e eu não conseguia descobrir o que fazer. Encontrei, entre os vários produtos, uma coisa chamada "base" e, em frente do espelho, tapei, cuidadosamente, cada um dos pontinhos de es­pinha.
Maquiagem: esta era uma outra coisa não abordada pelo meu pai naquele bate-papo que tivemos no carro amarelo cor de banana. Eu não tinha a mínima idéia de que existiam diferentes tipos de tonalidades de maquiagem e de que é necessário certificar-se de que o tom combine com a cor da pele. Quero dizer, como é que eu deveria saber tudo isso?

Bom. aprendi rapidamente aquela lição logo que entrei no vestiário masculino naquela tarde. Um cara superlegal, que passou por mim e percebeu que eu não havia combinado o tom da base com a minha cor morena, teve a bondade de, graciosamente, anunciar bem alto para todo o vestiário ouvir:
- Você tá usando maquiagem!
Imediatamente gaguejei um "não", mas ele insistia, no caso de alguém não ter escutado:
- O Eric tá usando maquiagem!
Tenho de admitir e dizer que, embora eu desejasse muito ser atraente, eu estava pronto para nunca mais usar maquiagem, mes­mo que corresse o risco de deixar que minhas espinhas arruinassem minha vida.
Outra nítida mudança que estava acontecendo dentro de mim era um súbito desejo de compartilhar minha vida com Cindy McFarlane. Era a coisa mais estranha, mas eu desejava conhecê-la. E eu queria que ela me conhecesse também! Aquele desejo continuou a crescer... e crescer... e crescer.
No início, eu apenas desejava conhecer a sua cor preferida do arco-íris, mas, com o passar das semanas e dos meses e com o aprofundamento daquele desejo, almejei nada menos do que saber qual seria a sensação de ter os lábios de Cindy contra os meus.
Lembro-me claramente de ter assistido a filmes quando mais novo (este foi o meu primeiro grande erro) e ver o desenrolar de uma história de amor. Rapaz conhece garota. Rapaz convida garo­ta para sair. Rapaz se aproxima. Rapaz move os lábios. E rapaz dá um beijo certeiro nos lábios vermelhos da garota. Tudo tão fácil, tão tranqüilo, tão harmonioso (e tão melado). Sentei-me para ob­servar aquele prodígio e estudei detalhadamente como eles posicionavam os lábios, como movimentavam as cabeças e, até mesmo, onde colocavam as mãos.
Aquele negócio era uma arte, e eu era absolutamente um zero à esquerda naquele assunto. Eu estava intrigado com aqueles dois pombinhos que haviam aprendido a beijar tão bem. Eu estava convencido de que devia existir uma escola secreta de beijo que todo o mundo conhecia, menos eu. Então, se eles não estavam dispostos a me convidar para fazer parte, decidi que eu mesmo iria iniciar o meu aprendizado.
Estarrecido, deitei-me em minha cama e me aconcheguei debaixo do meu cobertor. Mas não conseguia dormir. Minha mente continuava ligada a Cindy McFarlane! Imaginei seus lábios e tentei beijá-los, mas aquilo não era real. Então, virei de lado, agarrei ou­tro travesseiro e o trouxe para perto de mim. Movi meus lábios e "chwmack", meu travesseiro recebeu o beijo que intencionei dar na adorável face de Cindy.
E, é verdade, confesso que eu era um beijador de travesseiro! Aquele desejo interno estava crescendo, e eu não tinha uma "cobaia" humana. Conseqüentemente, meu travesseiro tornou-se a minha única opção.
Aquela palavra - aquela inútil palavra maluca - havia me transformado em um quatro olhos, boca metálica, cabelo seboso, cara maquiada, adorador de Cindy. beijador de travesseiro e magrela imitador de Schwarzenegger.
Foi aí que percebi que, se um dia eu viesse a escrever um livro sobre romance, seria melhor que eu começasse a fazer algu­ma coisa rapidamente.

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